A Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) confirmou que a travesti Gabryelle Silva de Jesus, de 21 anos, desaparecida desde 12 de agosto, foi assassinada por integrantes da facção Comando Vermelho (CV) após tentar ajudar uma família sequestrada no bairro Jacarandá, em Várzea Grande. O corpo da jovem ainda não foi localizado.
A informação foi detalhada nesta sexta-feira (05.12) pelo delegado Nilson André Faria de Oliveira, durante coletiva que apresentou avanços da Operação Ditadura Faccional CPX, deflagrada para desmantelar um grupo que impunha um regime de terror na região.
Segundo o delegado, a facção dominava totalmente o bairro, impondo um clima de medo e silenciosamente “ditando” as regras locais, onde qualquer tentativa de enfrentamento ou denúncia resultava em pena de morte.
Nesse ambiente de intimidação, Gabryelle se tornou alvo após tentar proteger a família de José Wallefe dos Santos Lins, de 28 anos, sequestrado junto com a esposa e o filho de um ano.
De acordo com a investigação, ela teria impedido que a esposa do jovem fosse espancada e ainda avisou à mãe de José sobre o sequestro. Essa atitude custou sua vida.
“Ficou muito claro nas apurações que eles mataram essa travesti simplesmente porque ela interveio”, disse o delegado.
Ainda segundo Nilson André, depois que Gabryelle alertou a mãe de José, criminosos foram até a residência dela e a levaram à força. Desde então, não houve mais notícias.
“Eles desapareceram com essa travesti. Eles mataram. Ainda não encontramos o corpo”, declarou.
Gabryelle morava em frente ao apartamento da família natural de Maceió (AL), e sua tentativa de impedir agressões foi a razão da execução.
O caso que desencadeou as investigações ocorreu em 9 de agosto. José, sua esposa e o bebê foram sequestrados pela facção.
O corpo de José foi encontrado 11 dias depois, enterrado em cova rasa nos fundos do Residencial Isabel Campos, com múltiplos ferimentos por arma branca.
A esposa e a criança foram resgatadas no dia 14, nas proximidades da UPA do bairro Ipase. A mulher apresentava diversas lesões e relatou ter sido obrigada a "aceitar" um casamento forçado com um dos faccionados para permanecer viva.
Segundo o delegado, o grupo dominava a área com ameaças constantes. Moradores viviam sob pânico e eram proibidos de recorrer às autoridades.
“Infelizmente, qualquer pessoa que faça uma denúncia ali é sentenciada à morte”, afirmou.
A morte de Gabryelle, ainda sem corpo encontrado, faz parte desse conjunto de crimes praticados para manter o controle sobre a comunidade.
A ofensiva policial cumpriu, até a manhã desta sexta-feira, 7 prisões dentre 11 mandados judiciais expedidos.
O objetivo é desarticular completamente o núcleo criminoso que atuava no Jacarandá e em áreas próximas.
A Polícia Civil segue as buscas para localizar o corpo de Gabryelle e esclarecer cada etapa da participação dos envolvidos na execução da jovem e nos crimes contra a família sequestrada.