Tem meme que define melhor a política do que qualquer discurso. Aquele que diz: “tem sabor, mas não tem recheio”. É bonito na propaganda, rende foto, discurso, coletiva e até palanque. Mas quando a gente morde, não tem nada concreto. Em Rondonópolis, a história da Unemat parece seguir exatamente esse roteiro: muito sabor, pouca substância.
Em 2014, o campus de Rondonópolis já era anunciado como realidade por uma liderança política estadual. Em 2015, a então reitoria da universidade afirmava que havia estudos em andamento e que o principal entrave era a ausência de um prédio próprio. A narrativa era simples: faltava estrutura física. Pois bem. O prédio veio.
Na gestão municipal anterior, foi construído um prédio destinado à universidade e entregue em 2023. A estrutura existe. Está lá. Concreto, paredes, salas. Mas o que ainda não existe é o campus. Hoje, o imóvel funciona apenas por meio de um termo de cessão de uso. Pela regra estabelecida, ele só será definitivamente incorporado à Universidade do Estado de Mato Grosso se, em até cinco anos, a unidade se consolidar oficialmente como campus. Caso contrário, o prédio retorna ao município, e voltamos à estaca zero. No entanto, há a impressão de que a própria universidade não demonstra empenho suficiente para evitar esse cenário.
Ou seja: temos prédio, mas não temos campus. Temos estrutura, mas não temos institucionalização. Temos discurso, mas não temos decisão política efetiva.
Em 2025, foi anunciada a criação de uma Frente Parlamentar em defesa do campus em Rondonópolis. A iniciativa soou como avanço. Porém, ao mesmo tempo, a unidade não foi mencionada na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026. A pergunta é inevitável: se é prioridade, por que não aparece no orçamento? Se é compromisso, por que não está na peça que garante recurso?
A sociedade rondonopolitana já ouve essa promessa há mais de uma década. De quatro em quatro anos, a pauta reaparece. Ganha força em período eleitoral, vira bandeira de campanha, ocupa espaço em discursos inflamados sobre desenvolvimento regional e acesso ao ensino superior. Depois, esfria. Some. Volta a ser apenas “estudo”, “análise técnica” ou “fase de avaliação”.
O que mais surpreende é que, neste momento, não é a falta de prédio que impede o avanço. A estrutura física existe. O entrave parece ser institucional e político. A própria universidade, que deveria ser protagonista na expansão do ensino superior público, adota postura cautelosa e lenta. Enquanto isso, Rondonópolis, uma das maiores cidades de Mato Grosso, segue sem um campus pleno.
Não se trata apenas de um prédio ou de uma sigla. Um campus consolidado significa cursos permanentes, autonomia administrativa, orçamento próprio, fortalecimento da pesquisa, extensão e geração de oportunidades para jovens que, muitas vezes, não conseguem se deslocar para outros municípios.
Fica a reflexão: será que realmente querem a Unemat em Rondonópolis? Ou a pauta é mais útil enquanto promessa do que como realidade? Porque promessa pronta rende voto. Campus consolidado rende responsabilidade.
Hoje, Rondonópolis vive o “sabor Unemat”. Tem gosto de universidade pública, tem cheiro de expansão, tem foto de entrega de prédio. Mas ainda falta o principal: a decisão concreta de transformar discurso em política pública efetiva.
E educação não pode ser meme. Ou é prioridade, ou é apenas propaganda.
Créditos: Rafaela Lima